Tiago Toricelli
Estou com 49 anos e comecei minha vida em altas montanhas em 2008, com a subida do Huayna Potosi e o curso de escalada em gelo. De lá até hoje já são mais de 25 altas montanhas escaladas entre Denali, Killimanjaro, Elbrus, Aconcagua, Chimborazzo, Cotopaxi, Ilimani, Orizaba e Sajama. E além do desafio das montanhas, da preparação, como 4 montanhas em 7 dias no México, da busca por recursos próprios para viagens, equipamentos, há também no meu caso a busca pelo equilíbrio com o trabalho e obviamente com a família. Não sou um montanhista profissional. Sou um cara que trabalha em uma ocupação comum, e que tem que cumprir a carga horário completa no escritório das 08h00 as 18h00.
Estou com 49 anos e comecei minha vida em altas montanhas em 2008, com a subida do Huayna Potosi e o curso de escalada em gelo. De lá até hoje já são mais de 25 altas montanhas escaladas entre Denali, Killimanjaro, Elbrus, Aconcagua, Chimborazzo, Cotopaxi, Ilimani, Orizaba e Sajama. E além do desafio das montanhas, da preparação, como 4 montanhas em 7 dias no México, da busca por recursos próprios para viagens, equipamentos, há também no meu caso a busca pelo equilíbrio com o trabalho e obviamente com a família. Não sou um montanhista profissional. Sou um cara que trabalha em uma ocupação comum, e que tem que cumprir a carga horário completa no escritório das 08h00 as 18h00. E no tempo que sobra colocar meus treinos e minha viagens para as montanhas, com meus próprios recursos financeiros, o que não é nada, nada fácil, sempre buscando o melhor custo, ficando nos lugares mais duvidosos pelos menores valores. Tive que abdicar de muita coisa, muita coisa, pela minha paixão, dedicação e doação as montanhas. Sou um montanhista que ama as montanhas e o que elas me proporcionam quando me desafio nelas, nelas encontro o meu eu mais profundo, aprendo, me confronto, me desenvolvo.
A jornada toda antes de chegar na montanha me ensina, quando chego na montanha, o cume torna-se uma consequência do que construí na minha jornada de preparação até chegar nela. Depois de mais de 15 anos de altas montanhas, sem pular nenhum degrau e nem pegar atalhos me senti apto para o Everest, que era meu objetivo desde sempre. Fui escoteiro desde os 8 anos de idade e desde que me conheço como gente vou para as montanhas aqui do Brasil, sozinho, escalar, acampar e treinar. E somando todos esses anos e os anos das altas montanhas, comecei minha preparação diária para o Everest, e o que era um desafio distante demais, se tornou real a cada passo que dava para poder realizar essa expedição.
Durante 3 anos treinei diariamente, desenvolvi treinos próprios de 20 mil degraus, com 6 horas e peso de 25 quilos, puxei pneu, fui duas vezes vice campeão da Copa São Paulo de Corrida de Montanha (18km) – pensando em preparação e e resistência, viajei o mundo para me testar nas montanhas, treinei todos os dias mais de 3 horas por noite, mas sempre me faltava o dinheiro para a expedição. Após 1 anos tentando, e preparação pronta, o dinheiro não veio. No segundo ano, ainda acreditando muito, o dinheiro mais uma vez não apareceu. No terceiro ano eu já tinha feito 104 apresentações para 104 empresas e marcas buscando patrocínio e o investimento ainda não tinha aparecido. Mas, faltando 1 mês para o embarque no final do meu 3º ciclo de ano treinando, após 18 anos pensando no Everest, finalmente obtive o financiamento. Felizmente, a minha resiliência fez com que não desistisse e permanecesse acreditando. E forma muitos, muitos obstáculos até esse momento. E cada um me fortalecia, passei por operação, por lesões, por complicações médicas que me barraram 5 meses de treino, e tantos problemas mais, mas eu me adaptava e treinava, acreditava todo dia. Finalmente iria para o Nepal.
Lá fazendo a rota normal de 50 dias, cheguei com a expedição da qual fiz parte, e agência no campo 4. Tentamos chegar ao cume naquela noite, mas no balcony um vento forte nos impediu. Meu óculos congelou e um olho meu ficou esbranquiçado. Tentamos buscar todas as alternativas para permanecer a escalada, mas não era possível. A descida ao campo 4 foi muito, muito desafiadora pelos imprevistos que aconteceram naquela longa descida, não foi uma relação amigável e de companheirismo com o sherpa que me acompanhava. Chegando lá no campo 4, pouco tempo depois a expedição se preparava para descer e deixar a montanha, mas eu ainda tinha o objetivo do Lhotse. Fazendo uma alteração de sherpa, permaneci eu e mais 2 sherpas no acampamento 4 enquanto toda a expedição descia. Na madrugada seguinte, saímos rumo ao Lhotse. Eu me sentia fortalecido pelo desafio superado na descida do campo 4 do Everest, e tive uma subida do Lhotse, a 4ª maior montanha do mundo, em 7h30min. Uma subida prazerosa, com sherpa companheiro de corda e amigável desta vez. Chegando ao cume, estava ainda mais disposto, e minha primeira pergunta ao líder foi se poderíamos voltar ao 4 do Everest e tentar novamente, mas o clima não permitiria. Atingir o cume do Lhotse me ensinou ainda mais sobre resiliência, determinação e o poder do acreditar. Não buscava títulos, marcas e nem nada disso, não possuo essa vaidade quanto a isso, outros fatores internos me completam. Poder inspirar e motivar, isso me move, e poder espalhar a força do acreditar me fortalece.
Só depois li que ao atingir o cume do Lhotse, me tornou o brasileiro que mais alto foi na temporada 2025 e o único brasileiro que alcançou o cume de uma montanha de mais de 8 mil na temporada. Sei que esse título não resume a temporada, já que tantos outros grandes montanhistas brasileiros realizaram feitos incríveis em outras altas montanhas, e o cume é só uma consequência. Sei também que minha história não é de um montanhista profissional, mas conto essa história porque com ela celebro o reconheço o quanto aprendi com cada guia que tive no mundo inteiro, brasileiros ou não. E cada um deles fez parte do cume. Com cada um aprendi muito e continuo aprendendo. Essa história é sobre superação, a superação de um cara normal, comum, que ama as montanhas, e nela se desafia. É uma história sobre acreditar, sobre o quanto acreditar, se esforçar diariamente, determinar e se preparar dá resultado. O Everest sempre foi pra mim um desafio impossível, mas passo a cada passo tudo é possível, acreditar faz a diferença. Me orgulho do meu feito no Lhotse e o quanto consegui inspirar outras pessoas e levar a tantos lugares o quanto as montanhas ensinam e precisam ser respeitadas como lugares mágicos. O meu desafio do Everest está aberto, e na próxima completo os 400 metros que faltam. Tenho treinado desde a minha volta, e estarei preparado mais uma vez se ele me autorizar chegar em seu cume. Minha ideia era voltar para o Everest em 2026, e me preparei muito para isso desde minha volta, quero entender o que a montanha ainda quer me ensinar, porque quer que eu volte pra lá. No entanto, este ano, não será possível. Descobri 2 canceres que me impedem neste momento, mas sei que além claro da força da minha família, a força que descobri minha em todas as montanhas vai me ajudar neste momento, as lições que tirei de todas as minhas jornadas me ensinaram muito. Esse mundo é mesmo muito louco, e agora é hora mais umas de aplicar tudo o que aprendi com elas (resiliência, resistência, determinação, persistência, força, coragem, fé, acreditar, seguir, não parar, humildade e tanta mais).
E agora é hora de escalar essas duas montanhas, e me preparar para a volta ao Everest. São só mais dois obstáculos neste meu caminho para o Everest. Já venci tantos, e esses são só mais dois. Então vou cuidar disso e já já volto para as montanhas. E com tudo o que tenho de força da família e de aprendizado das montanhas, não tenho a menor dúvida de que sãos apenas pequenos obstáculos. O que tenho a aprender aqui também vai me fortalecer para continuar no meu caminho. Compartilho essa história porque chegar no cume sozinho não é tão valioso quanto poder aprender lá e compartilhar o que foi aprendido. Não sei se esse relato sobre as montanhas se enquadrará nos requisitos desta premiação, mas se aos menos alguns lerem e tirarem algo daqui, já valeu. Os desafios que tanto nos ensinam merecem ser compartilhados, e que possam inspirar a todos os montanhistas também não profissionais, que se preparando, se dedicando, respeitando as montanhas, e com humildade de aprender em todos os instantes, é possível enfrentar os desafios.
Local das realizações: Nepal
Data das realizações: Abril a Maio 2025
Links de referência:
https://altamontanha.com/tiago-toricelli-chega-ao-cume-do-lhotse-e-representa-o-brasil-nas-montanhas-acima-de-8-mil-metros-nessa-temporada/